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O CRIME MISTERIOSO DO BANDIDO CRITERIOSO – roberto prado e alexandre costa

Publicado em

CAPÍTULO OITAVO [leia aqui o capítulo 7]

(um capítulo muy vago)
(Musical incidental)

Narrador – Após várias reclamações, duas ou três citações judiciais, quatro coquetéis Motov, bilhetes anônimos, emails agressivos, donas de casa chorosas, bêbados violentos, greve dos lixeiros aqui no bairro, ameaça de abandono do lar por parte de minha amantíssima esposa, notas baixas dos meus filhos na escola, olhares ameaçadores de minha sogra que vive em casa a vinte três anos, onze meses, três semanas, dois e onze horas, palpites impertinentes de meus cunhados que foram lá pro fim de semana no sete de setembro de 1999, vamos dar prosseguimento à nossa misteriosa novela (música retumbante) – O Crime Misterioso Do Bandido Criterioso.

(música de mistério)

Narrador – Mas antes vamos a um brevíssimo resumo. Sabemos que:

 Há um criminoso matando pessoas, e que

  1. Ele sempre deixa réplicas baratas de pirâmides, e que:
  2. O Delegado Dr. Epiphanio Luzico delegado linha-dura de outros tempos e na verdade um pau mandado da esposa que o proíbe de beber, fumar, fazer tatuagem e usar um piercing, e que:
  3. Eriberto da Costa servidor público mal remunerado é explorado de forma vil por seu superior, o supracitado Dr. Epiphanio Luzico, um déspota incapaz. Eriberto da Costa trás no corpo e nos órgãos internos as marcas da sevícia a que se submete, tendo adquirido uma cirrose hepática por conta das altas taxa de uísque que bebe durante o dia, uma infecção de pele causada pelas tatuagens, uma cicatriz horrenda na barriga por causa do piercing que lhe inflamou o umbigo. Cultiva um enfisema pulmonar por causa dos cigarros que Dr. Epiphanio Luzico o obriga a fumar sem parar, e que:
  4. Até agora, nem esse locutor que graciosamente vos fala, conseguiu entender o que vieram fazer aqui os personagens Legina Herena e Régio Campos D’Orvalho do núcleo popular nessa história. Terão eles algo de pertinente a nos mostrar? Ou simplesmente estão aqui por conta da cota de personagens diferenciados em novelas?
  5. Será que antes do capítulo dez esse hediondo crime será solucionado?
  6. Será que minha voltará ao normal um dia? Será que enfim os parasitas que habitam meu lar – e aqui não me refiro a cupins, moscas, baratas, pernilongos, mosquitos, as pulgas do cachorro da minha sogra – irão embora? Será que superarei minha baixa auto-estima e mudarei de emprego? Ganharei o bolão que fiz com o porteiro da rádio e poderei curtir um fim de semana em SãoVicente?

Narrador – Sigamos, no capítulo anterior Eriberto da Costa recuperava-se de uma mal sucedida cirurgia de circuncisão e delirava palavras sem nexos fazendo-nos crer que ele  seria o misterioso bandido criterioso, quando(interrompido)

(som de sirene de ponto)
(música incidental)

Narrador – Mas como? Já acabou o tempo? Mas praticamente nem houve o capítulo de hoje…

(toca o telefone)

Narrador – Mas estou tão perdido quanto nossos ouvintes…

(toca o telefone)

Narrador – Como poderei ir para casa sem saber o que aconteceu no capítulo que não houve hoje?

(toca o telefone)

Narrador – Quando terminarei um capítulo sem esse telefone tocando sem parar?

(toca o telefone)
(música incidental)

Narrador – Alô! Como? Eu não falei nada sobre o marciano?

(música incidental)

FIM DO CAPÍTULO OITAVO

O CRIME MISTERIOSO DO BANDIDO CRITERIOSO – roberto prado e alexandre costa

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CAPÍTULO SEXTO – (LEIA AQUI O CAPÍTULO CINCO)

(canto de pássaros)
(som de harpa)
(sinos de ventos)

Eriberto da Costa – (bocejando) – Me Deus eu adoro os sons de sexta-feira (aumenta o volume dos cantos de pássaros) – Somente às sextas-feiras me sinto um ser humano outra vez (toca o telefone) (murmura) Meu bom Deus que seja o Dr. Epiphanio, que não seja o Dr. Epiphanio….

Eriberto da Costa – Alô! Dr. Epiphanio Luzico! (som de agulha arranhando o disco, pára os cantos de pássaros, a harpa e os sinos de ventos), pode falar Doutor. (ele soluça baixinho enquanto fala) O que senhor manda hoje? Como outro corpo? Outra pirâmide? Como? Agora é uma pirâmide Maia? Como Doutor? Por favor, o senhor pode repetir mais lentamente, por favor, parece que não entendi suas últimas palavras… (vinheta de suspense) o senhor quer que eu faça o quê? (vinheta de suspense mais lata) Uma o quê? (vinheta de suspense mais alta ainda) Não doutor Epiphanio, tudo menos isso… Como? Isso é nome de uma novela famosa? Não estou falando de novela Doutor Epiphanio, estou falando de sua pedido estapafúrdio… Onde eu aprendi essa palavra? Isso não vem ao causo doutor Epiphanio… Não Doutor Epiphanio, não estou discutindo suas ordens doutor… Doutor hoje é sexta-feira… Mas doutor… Mas doutor… Sim senhor, eu sei que o senhor é o meu patrão doutor, mas… (chorando) Está certo doutor. Onde é o endereço? Estou anotando doutor… Mas doutor… Doutor entenda eu católico apostólico romano fui coroinha na infância, minha mãe é filha de Maria… (soluçando loucamente) Está certo, está certo vou ao consultório me submeter à circuncisão em seu nome… Mas doutor ainda nem passou a dor da sua tatuagem de sereia em minhas costas… Como? Sim, e sei que seu casamento estáem risco.. Sim me preocupo com o senhor sim, não, não doutor não assim tão egoísta.. Está bem doutor, já estou indo…

(toca a marcha fúnebre de chopin)

Eriberto da Costa – Eu detesto as sexta-feiras também assim como detesto todos os outros dias, meses e todos os anos que me faltam para a aposentadoria…

(toca a marcha fúnebre de chopin em fade-out)
(buzinas de carros, gritos e vozes na rua)

Eriberto da Costa– Ainda pulo embaixo de um carro desses um dia basta mais um pedido estapafúrdio do Doutor Epiphanio e juro por esse sol que me “alumia” que eu me jogo embaixo de uma caminhão… (som de forte de trovoada) – até sol me trai, até o sol…

Locutor – E assim meditabundo, sentindo presa dos piores presságios Eriberto da Costa segue para o consultório do Urologista do Doutor Epiphanio Luzico quando tropeça em algo (som de lata sendo chutada).

Eriberto da Costa – Mas o que será isso? (vinheta de suspense) – Mas não pode ser, não, não poder, mas não poder ser de jeito nenhum o que eu estou pensando que isso venha a ser… (vinheta de suspense) Mas por todos os diabos do inferno, isso, isso aqui, isso aqui é uma… (som de ônibus, buzinas, gritos e vozes da rua) Preciso falar urgente mente com o Doutor Epiphanio imediatamente após a recuperação da cirurgia.

FIM DO CAPÍTULO SEXTO

O CRIME MISTERIOSO DO BANDIDO CRITERIOSO – roberto prado e alexandre costa

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CAPÍTULO SEXTO (leia aqui o capíulo V)

 

(canto de pássaros)
(som de harpa)
(sinos de ventos)

Eriberto da Costa – (bocejando) – Me Deus eu adoro os sons de sexta-feira (aumenta o volume dos cantos de pássaros) – Somente às sextas-feiras me sinto um ser humano outra vez (toca o telefone) (murmura) Meu bom Deus que seja o Dr. Epiphanio, que não seja o Dr. Epiphanio….

Eriberto da Costa – Alô! Dr. Epiphanio Luzico! (som de agulha arranhando o disco, pára os cantos de pássaros, a harpa e os sinos de ventos), pode falar Doutor. (ele soluça baixinho enquanto fala) O que senhor manda hoje? Como outro corpo? Outra pirâmide? Como? Agora é uma pirâmide Maia? Como Doutor? Por favor, o senhor pode repetir mais lentamente, por favor, parece que não entendi suas últimas palavras… (vinheta de suspense) o senhor quer que eu faça o quê? (vinheta de suspense mais lata) Uma o quê? (vinheta de suspense mais alta ainda) Não doutor Epiphanio, tudo menos isso… Como? Isso é nome de uma novela famosa? Não estou falando de novela Doutor Epiphanio, estou falando de sua pedido estapafúrdio… Onde eu aprendi essa palavra? Isso não vem ao causo doutor Epiphanio… Não Doutor Epiphanio, não estou discutindo suas ordens doutor… Doutor hoje é sexta-feira… Mas doutor… Mas doutor… Sim senhor, eu sei que o senhor é o meu patrão doutor, mas… (chorando) Está certo doutor. Onde é o endereço? Estou anotando doutor… Mas doutor… Doutor entenda eu católico apostólico romano fui coroinha na infância, minha mãe é filha de Maria… (soluçando loucamente) Está certo, está certo vou ao consultório me submeter à circuncisão em seu nome… Mas doutor ainda nem passou a dor da sua tatuagem de sereia em minhas costas… Como? Sim, e sei que seu casamento estáem risco.. Sim me preocupo com o senhor sim, não, não doutor não assim tão egoísta.. Está bem doutor, já estou indo…

(toca a marcha fúnebre de chopin)

Eriberto da Costa – Eu detesto as sexta-feiras também assim como detesto todos os outros dias, meses e todos os anos que me faltam para a aposentadoria…

(toca a marcha fúnebre de chopin em fade-out)
(buzinas de carros, gritos e vozes na rua)

Eriberto da Costa– Ainda pulo embaixo de um carro desses um dia basta mais um pedido estapafúrdio do Doutor Epiphanio e juro por esse sol que me “alumia” que eu me jogo embaixo de uma caminhão… (som de forte de trovoada) – até sol me trai, até o sol…

Locutor – E assim meditabundo, sentindo presa dos piores presságios Eriberto da Costa segue para o consultório do Urologista do Doutor Epiphanio Luzico quando tropeça em algo (som de lata sendo chutada).

Eriberto da Costa – Mas o que será isso? (vinheta de suspense) – Mas não pode ser, não, não poder, mas não poder ser de jeito nenhum o que eu estou pensando que isso venha a ser… (vinheta de suspense) Mas por todos os diabos do inferno, isso, isso aqui, isso aqui é uma… (som de ônibus, buzinas, gritos e vozes da rua) Preciso falar urgente mente com o Doutor Epiphanio imediatamente após a recuperação da cirurgia.

O CRIME MISTERIOSO DO BANDIDO CRITERIOSO – roberto prado e alexandre costa

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QUARTO CAPÍTULO – {LEIA AQUI O TERCEIRO CAPÍTULO}

(Passos correndo)
(porta batendo)
(tosse engasgada)

Régio Campos D’Orvalho (arfando) – Legina, Legina, você não acredita no que me aconteceu na rua, eu estava fazendo malabarismo com aquele vaso de cristal da sua avó quando… (interrompido)

Legina Herena – … Você quebrou o vaso de cristal de minha bisa, veja bem, bisavó? Estava guardando aquela relíquia para por no prego e você quebrou… (interrompida)

Régio Campos D’Orvalho – Quebrei nada mulher, quebrei nada, não me interrompa quando estou falando com você… (interrompido)

Legina Herena – Régio com quem você pensa que está falando, com quem me diga? Vamos devolva-me o vaso de minha bisavó antes que eu te mostre o que é mesmo um acidente tendo você, você mesmo, como a principal e única vítima, seu traste dos… (interrompida)

 (Música incidental)

 Locutor – Como parece, a discussão do casal vai longe e o tempo urge, vamos interromper essa cena e vamos focar nossas atenções para o fulcro desse drama.

 (Música incidental)

 Eriberto da Costa (choro e ranger de dentes) – Márcio, Márcio não volte prá Marte, sem você nunca mais vou resolver um crime, Márcio você é o único amigo que eu tenho nesse mundo, Márcio sem você não terei coragem para fazer a tatuagem de sereia em minhas costas… (choro e ranger de dentes)

(som de copo sendo cheio)
(som de líquido sendo engolido)

Eriberto da Costa – De volta aos mistérios, às pistas, às taras do meu chefe, aos seus cigarros que esse covarde tem medo de fumar, a uísque que ele tem medo de beber e mais tarde à tatuagem que a mulher dele o proíbe de fazer… Márcio você tinha me prometido levar para marte… Como diria minha prima Legina Herena, vocês homens são todos iguais…

(música triste, choro, soluço)

Locutor – O que será que Régio Campos D’Orvalho iria contar para Legina Herena? Teria intuído algum ouvinte que Legina Herena era prima de Eriberto da Costa? Em meio a tantos dramas paralelos haverá tempo hábil para Dr. Epiphanio Luzico desvendar esse terrível crime hediondo?

(música incidental muito dramática)

FIM DO QUARTO CAPÍTULO

O CRIME MISTERIOSO DO BANDIDO CRITERIOSO – roberto prado e alexandre costa

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{LEIA AQUI O CAPÍTULO I}

CAPÍTULO II

(Som de badaladas de um carrilhão)
[na delegacia: 9:50h da manhã do dia seguinte]

Dr. Epiphanio Luzico (espantado) Eriberto veja essa notícia ocorreu outro crime bárbaro esta madrugada na esquina da Rua Rego Souto com a Rua Das Caixas. Mas dessa vez a vítima estava marcada a faca com as iniciais BB… (interrompido por Eriberto)

Eriberto da Costa – Meu DEUS, agora o Banco do Brasil está mutilando os inadimplentes?

Dr. Epiphanio Luzico – Deixe de ser idiota Eriberto, se os bancos pudessem fazer isso, o que poderiam fazer os delegados com seus assistentes? Deixe-me terminar de ler a notícia. Ouça com atenção as iniciais estavam exatamente no local do coração. Veja Eriberto sua Besta, este é um crime totalmente diferente de tudo que já presenciei em meus 45 anos de serviços prestados como policial.

Eriberto da Costa – Com certeza um crime misterioso Dr. Epiphanio! – diz estourando uma bola de chiclete.

 (música de suspense enquanto o comentarista fala)

Comentarista – Eriberto é investigador de polícia e menino de recados do Dr. Epiphanio desde que começou a trabalhar na delegacia, há quinze anos. Eriberto guarda um segredo que nem mesmo Dr. Epiphanio sabe ou imagina saber.

(baixa a música)
(som de um punho batendo no tampo da mesa)

Dr. Epiphanio Luzico – (rosna sarcasticamente) Sim Eriberto. Como sempre você é um mestre em dizer o óbvio o tempo todo. Antes de se manifestar gaguejando alguma estultice, prepare-me um conhaque.

(som de copo sendo cheio)

Eriberto da Costa – E isso é bom doutor Epiphanio?  (Dr. Epiphanio Luzico rosna) Devo ir investigar?

(som do copo sendo jogado contra a parede)

Dr. Epiphanio Luzico – Não! Espere aqui que o assassino deve se entregar em poucos minutos. – (começa a tossir)

Eriberto Costa – Doutor Epiphanio assim o senhor vai acabar se engasgando outra vez com a dentadura.

Dr. Epiphanio Luzico – Ora seu, seu, seu…(tosse mais forte)

(sons de passos, objetos caindo no chão, e porta batendo)
(música incidental)
(sons de tráfego, carros passando, buzinando, passarinhos)

Eriberto Costa – O Doutor está ficando velho, quando que ele deixaria que eu fosse sozinho fazer uma investigação? Daqui ainda dá para se ouvir a tosse dele (bem baixo o som de tosse) Sei não, mas acho que o doutor não chega vivo à aposentadoria…

(som de escapamento de carro)

Eriberto Costa – Meus Deus, estão querendo me matar (som de passos correndo)

(Música incidental)

FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO

DIA DE LEITURA – alexandre costa

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Desculpe, não sou cronista! – disse enquanto assinava a dedicatória. Como é mesmo o seu nome? – me perguntou. Nelson! – respondi meio envergonhado e emendei: se o senhor não é cronista o que é então? Um ranzinza que odeia a humanidade, e como não pode mudar nada, escreve para desopilar o fígado – me respondeu sem levantar a cabeça. Peguei o livro para ler a dedicatória, mas tinha uma letra ilegível, deixei pra lá e nem perguntei o que estava escrito para não ofendê-lo. Só tenho a mão esquerda pra escrever e não sou canhoto; desculpe a letra – disse-me, tentando explicar o garrancho e mostrou-me a mão direita inchada e meio deformada. Foi uma crise de ira. Nunca mais será a mesma. Não presta nem para escrever. Constrangido, enfiou-a de volta no bolso da calça. Olhando fixamente dentro de meus olhos, perguntou se tinha conseguido entender o que estava escrito. Ninguém entende, mas como não perguntam nada, nada digo – riu de ficar vermelho.

Obrigado! – respondi e saí com medo que me perguntasse o que havia achado do livro, mas ele foi mais rápido que eu. E então, o que você achou? Da dedicatória? – perguntei com aquela cara de idiota que só eu tenho. Não. Do livro! E agora a pergunta vinha carregada de um peso insuportável para mim. Não sou crítico literário – respondi seco. Não precisa ser – ele emendou, agora mais simpático. Estendeu a mão e me convidou pra sentar à mesa e tomar um cafezinho, servido pelos editores.

Nunca participei de uma noite de autógrafos! – disse. Nem eu. É meu primeiro livro.  Ele respondeu tomando uma xícara de café de um gole só. Mas você não respondeu a minha pergunta. – disse-me sério. Sobre o livro? – lá estava eu tentando fugir dele! Sim. O que você achou? Não entendia o que ele estava tentando me dizer, afinal eu ainda não tinha lido o livro. Como eu poderia responder a pergunta? Foi então que percebi outra coisa: não havia mais ninguém na livraria – apenas eu – o único leitor(?)

Olhei na mesa e vi que o livro que eu tinha nas mãos era o único exemplar que ele possuía. Olhei para ele a fim de responder a pergunta, mas ele me fez outra. Você fuma? – perguntou já com um charuto acesso entre os dedos. Chacoalhou o fósforo, deu uma baforada na minha cara e abanou a fumaça com a mão. Desculpe! – disse por mera obrigação! Tosse, tosse, tosse…

Tentei ser simpático também. Mas eu ainda nem li, como posso responder? Você tem razão. Estou sendo precipitado. – reconheceu. Depois se virou para uma pilha grande que havia debaixo da mesa, e que só agora eu percebera. Quantos você tem aí? Trinta! Não é um numero muito pequeno para uma edição? Você conhece trinta pessoas que lêem? – me perguntou com uma expressão séria demais para o meu gosto. Não! Então para que imprimir mais? – emendou.

Aquilo fazia muito sentido. Por um momento fiquei pensando, tentando juntar em minha mente trinta pessoas que tinham o hábito de ler dentro do meu círculo de amizade. Conheço dois – respondi com um sorriso, querendo parecer que duas pessoas era um universo imenso para ler um livro. Ele deu outra baforada na minha cara. Agora de propósito. Tosse, tosse, tosse…

Dê-me o nome delas – ele me disse, não, ele ordenou, como se fosse um assaltante roubando uma velhinha indefesa. Fiquei branco, como vou lembrar o nome de duas pessoas que lêem assim sob pressão? Disse que não me lembrava. Como não se lembra? Você não quer que eu venda meu livro a elas? Bateu com a mão direita outra vez. Agora sei como ele a quebra, e me acusou de também ser escritor e estar fazendo uma reserva de leitores. Não, não! Não estou fazendo reserva de leitores, mas sim – sussurrei, olhando para os lados como com medo de que fosse descoberto -, também escrevo alguma coisa. E senti que ele chutou os exemplares que estavam debaixo da mesa. Bosta! Que azar, meu único leitor também é escritor. Quando disse isso, fui encolhendo na cadeira de tanta vergonha. Ou era medo dele(?) Desconfiado de que eu podia estar mentindo, perguntou: Você já escreveu alguma coisa na vida? Um bilhete, uma carta pra namorada, anotou um recado? Tenho alguns contos, mas nunca publiquei – respondi, pronto para ser xingado, mas ele desistiu da luta. Deixa pra lá! – terminou de falar e deu outra baforada! Tosse…tosse…tosse! Dessa vez eu mesmo abanei a fumaça com as mãos.

Se você me permite vou embora agora. Não! – gritou assustado! Preciso de alguém aqui pra chamar a atenção para mim. Mas eu não sou garoto propaganda – protestei. Talvez depois de ler o seu livro eu pense nisso. Pois eu digo que o livro é muito bom! Se é tão bom assim, por que você só vendeu um até agora? Falta de uma boa estratégia de venda, eu acho!

Tomou mais uma xícara de café, deu a última baforada no charuto, amassou a bituca que restou no cinzeiro, depois fechou a caderneta onde anotou a quantidade de livros vendidos naquele dia. Levantou-se segurando no espaldar da cadeira. Levantei-me junto com ele e estendi a mão a fim de cumprimentá-lo e ir embora definitivamente daquele lugar. Ele me segurou e chamou para um café no bar da livraria. Vamos lá, afinal não tenho mais ninguém pra conversar mesmo e, pelo que vejo, não vou vender outro exemplar hoje. Mas…, mas eu preciso ir – insisti. Uma saideira! Olha, sei que você quer ser simpático porque precisa disso para fisgar o seu público, mas eu não estou a fim de ficar mais nenhum minuto aqui. – E agora minha voz soava imperativa como nunca havia soado antes. Ok! Ele pareceu indeciso na resposta, mas foi a minha deixa. Dei as costas e fui embora. Depois de alguns passos ouvi sua voz mais uma vez. Então me diga o que achou do prefácio pelo menos. Eu mesmo escrevi. Você precisa ler, não entende?, você tem que ler pelo menos o prefácio e me dar a sua opinião. Aquela foi a gota d’água. Tirei o livro da sacola e joguei-o de volta na mesa. Nem me preocupei com o dinheiro que havia gasto, mas ele me alertou. Não vai levar o livro?, então pegue seu dinheiro de volta. Fiz que não ouvi. Aliás, nunca deveria ter entrado naquela livraria. Quase fico refém de um escritor passivo-suicida, litero-homicida. Mas de repente me bateu um sentimento de culpa. Culpa por deixar para trás um futuro escritor de sucesso, um prêmio Nobel de literatura, ou simplesmente um cara querendo vender suas crônicas para alguém mais que a própria família e amigos. Voltei. Precisava me desculpar e fazer o que ele havia me pedido. Veja só quem voltou?! – ele debochou de mim agora. Perdeu alguma coisa? Não! – respondi seco, mas com educação. Vim porque acho que você merece uma chance, eu mesmo nunca tive a sorte de ter um editor para lançar meus contos. Qual o seu motivo para escrever? – me perguntou.

Acho que de algum modo todos querem se fazer ouvir, e desejam que o outro o reconheça. Todos têm essa vontade dentro de si e, ainda que precariamente não consiga expressar suas idéias, suas emoções, faz o possível para ser consciente e expressivo – não lembro de ter explicado a minha opinião desse modo a ninguém, mas parecia que ele conseguia tirar de dentro de mim algo que eu nem sabia que existia. Ele, então, continuou a minha explicação, enquanto acendia outro charuto e dava uma baforada. Tosse, tosse, tosse…

De repente ficou claro para mim que tínhamos a mesma linha de pensamento. Sabíamos que a linguagem e o pensamento passam necessariamente pelo espírito, para depois despejar-se no mundo material através da fala e da escrita. Isso nos uniu de alguma maneira naquele momento. Então, aquela figura sisuda do escritor à minha frente desmoronou. Eu vi ali naquele homem um valor que não encontrara antes em nenhum outro. Pedi que ele continuasse a explicação. Ele o fez e me deu um conselho que desde então sigo. Escreva livremente, naturalmente, ouvindo sua própria voz interior. Afinal, não existe escrita que não seja construída com o corpo e com a emoção. Peguei o livro que havia jogado em cima da mesa, olhei mais uma vez a dedicatória e desta vez pude entender perfeitamente o que estava escrito naquelas palavras tortas. Nos levantamos e eu o cumprimentei. Ele sorriu mais uma vez, soprando a fumaça do charuto no meu rosto. Tosse, tosse, tosse…

ONTEM ELA ME BEIJOU – alexandre costa

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Ontem, uma segunda-feira chuvosa de outono, dia vinte e dois de maio de mil novecentos e noventa e nove – um dia que ficará para sempre em minha memória – por volta das dezenove horas e trinta e sete minutos, como mostrava o grande relógio estilo gótico tardio instalado na torre norte da principal praça da cidade, inaugurado com pompa e circunstância há mais de quarenta anos pelo antigo e finado – que Deus o tenha com toda sua graça, – prefeito de nossa cidade, restaurado há pouco mais de uma semana pela atual administração, e re-inaugurado pelo atual prefeito, com festa milionária pelo partido que já há algum tempo faz campanha – das mais caras que já se viu na cidade, posso dizer com certeza – para sua reeleição, e que fica a alguns metros de onde eu estava, um vento lateral – que, aliás, sempre sopra àquela hora da noite – chamou a minha atenção, enquanto uma pequena gota gelada de chuva se precipitou de uma pequena folha agarrada ao tronco de um fícus – localizado na rua das magnólias, na altura do número quarenta e dois, bem de frente a um pequeno portão de ferro, enferrujado pela ação do tempo e pela falta de manutenção, que divisa um magnífico jardim de gérberas de todas as cores, cultivado com esmero e carinho por Dona Faurécia, proprietária quase centenária e excelente doceira que vende deliciosas cocadas de porta em porta pelas ruas do bairro -, e atingiu minha nuca, entrando lentamente por dentro do meu agasalho, escorrendo pelas costas e me dando calafrios, quando ela me olhou com olhos de rara preciosidade e sorriso desinteressado, maneou levemente a cabeça como alguém que tenta chamar a atenção para alguma coisa que está acontecendo por cima dos ombros, piscou seus lindos olhos verdes tentando me dizer alguma coisa que naquele momento não pude perceber, pois fiquei paralisado de frio, e me beijou!